Curadoria Cinema

O olhar crítico para o presente e o gesto político do cinema são as forças principais que mobilizam os curtas-metragens selecionados pela curadoria do 18º NOIA – Festival do Audiovisual Universitário. De um modo geral dentro da seleção, as realizadoras e os realizadores universitários lançam mão de diferentes formas expressivas para tratar da atual conjuntura histórico-social brasileira, a partir de uma abordagem politizada do fazer cinema. A grade de programação contempla 13 curtas nacionais e 7 cearenses.
Na Mostra Competitiva Nacional, “Copacabana Madureira” é um documentário com imagens de arquivo em torno da guerra de fake news que marcou a disputa das eleições para presidente no Brasil. “Bicha-bomba” faz uso de imagens domésticas para escancarar as formas de preconceito dentro das relações familiares. A ameaça aos povos indígenas é o alerta feito pelo ensaio performático “O verbo se fez carne”, enquanto “Jason” busca olhar para o cotidiano de uma família que mora em um assentamento de Goiás. “Diz que é verdade” propõe um jogo de encenação com personagens que cantam em um karaokê de Belo Horizonte.
Entre as propostas ficcionais, “Nada Além da Noite” coloca em paralelo as dúvidas sobre o futuro de um jovem de periferia e a relação afetuosa entre um menino e sua avó, durante o contexto da votação do impeachment de Dilma Rousseff. “Rebento” propõe uma reflexão sobre a ausência da figura paterna nas famílias negras que moram nas periferias. A ficção “E o que a gente faz agora?” e o documentário “Pouso Autorizado” encontram pontos de conexão ao abordarem as diferentes possibilidades de amor entre mulheres negras. “Torcida Única” coloca em questão a interdição da participação de meninas nas torcidas de futebol. Um grupo de amigos se reúne em uma casa para celebrar uma festa de aniversário e rememorar a perda de alguém querido entre eles.
Para completar as sessões da Mostra Brasileira, dois curtas cearenses integram a grade. “Oração ao Cadáver Desconhecido” usa os códigos da ficção científica para criar uma história em torno da aparição de um corpo estranho em um matagal. O documentário “Mãos de Barro” trata do ofício da produção de cerâmica e do legado deixado por pequenos artesãos em uma comunidade de Cascavel, no litoral do Ceará.
Os corpos estão mobilizados diantes da tela e, contemplando a Mostra Cearense de Cinema Universitário, nos deparamos com personagens curiosos, questionadores, moventes e que se permitem experimentar. Trazendo elementos presentes na arquitetura e no dia-a-dia de Fortaleza, o documentário “A Mulher de Pele Azul” e a animação “Uma Volta pela Praça” trazem à cena, a partir de tons de mistério e recortes oníricos, o Theatro José de Alencar e a Praça do Ferreira. A experiência diária da vida no sertão é o mote em “Galdino”, que nos convida a observar e vivenciar a rotina do homem sertanejo ali representada. Contemplativo também é o trajeto que percorremos em “Low Light”, uma animação que narra o percurso solitário de uma menina no cenário noturno da cidade grande. Ainda sobre caminhos a serem percorridos encontramos em “UMIROBA” a viagem de quatro amigos e o jogo que acontece entre eles.
No documental “Prazer, Eu Sou do Bom” nos deparamos com a disputa de narrativa acerca das cidades e acompanhamos um recorte da tecitura de ações que têm como objetivo a descentralização de arte, cultura e cidadania, bem como afirmar a autonomia para contar a história do bairro Bom Jardim, na cidade de Fortaleza.
Finalizando a Mostra Cearense de Cinema, o ficcional “Não vai te atrapalhar” traz uma noite na vida de duas universitárias nos mostrando um pouco do que são as descobertas atravessadas do período da faculdade e fazem parte do nosso crescimento subjetivo.

Camila Vieira

Ceará

Camila Vieira é jornalista, crítica e curadora de cinema. Doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Escreve atualmente na revista eletrônica Multiplot. Faz parte da equipe de curadoria de curtas-metragens da Mostra de Cinema de Tiradentes, desde 2018. Integrou a equipe de programação da Semana de Cinema, antiga Semana dos Realizadores, em 2017 e 2018, e a curadoria de curtas contemporâneos da CineOP, em 2019. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine).

Mariana Freitas 

Ceará

Realizadora audiovisual, articuladora cultural e cearense diaspórica, Mariana Freitas é bacharela em Direito pela Faculdade Cathedral (Boa Vista/RR), onde iniciou suas pesquisas sobre o cinema nacional aprofundadas posteriormente durante a graduação em Cinema e Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná (Curitiba/PR). Nesse ínterim mergulhou de vez na realização cinematográfica e produziu diversos curtas-metragens traçando em paralelo a continuidade de suas pesquisas relacionadas às políticas públicas para a cultura. Busca rodar o Brasil exibindo filmes em espaços públicos promovendo deslocamentos e encontros a partir da experiência audiovisual.

Sponsors